produtividade acadêmica

Um passo de cada vez: o segredo da produtividade acadêmica

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Você sente que está desenvolvendo sua pesquisa acadêmica com produtividade inferior à que esperava? Que, apesar de se dedicar horas ao planejamento e à execução de seu trabalho, tem rendido pouco/ Trabalha horas a fio e, ao final de um árduo dia de trabalho, escreveu apenas uma página? Isso é muito mais comum do que parece. O lado bom é que tem cura: a adoção de estratégias comportamentais que induzem a formação de novos hábitos que elevam sua produtividade.

Todos nós pensamos que há circunstâncias enfrentadas exclusivamente por nós mesmos. Pensamos que apenas nós somos pouco produtivos após um dia inteiro de trabalho e que quem admiramos por sua produtividade tem alguma característica “especial”. Pode ser verdadeiro, mas também pode não ser. Não são poucos, por exemplo, os que elogiam minha produtividade. Afinal, minha dissertação de mestrado em direito teve 390 páginas e a de doutorado, 480.

O que poucos sabem é que o processo de redação – especialmente da dissertação – foi um parto (normal), sem anestesia. Foi difícil, muitos dias de produtividade quase nula, em que eu não conseguia redigir mais que uma página. Em outros dias, a mente estava focada e eu conseguia escrever 6, 7 laudas. Mas a maioria dos dias eram bastante penosos. Tinha pouco tempo? Não. À época, eu lecionava em uma faculdade particular pela manhã e tinha o restante do dia livre para produzir. E, convenhamos, escrever uma página por dia não é nada digno de orgulho.

Para elevar a produtividade acadêmica, trabalhe em partes pequenas 

No doutorado, a produtividade se alterou substancialmente. Embora tivesse tido um ano bastante livre enquanto fui Visiting Researcher em Harvard, passei a maior parte do tempo em que estive lá lendo, pesquisando e conversando com professores e outros pesquisadores sobre temas correlatos à pesquisa. Tive a oportunidade, por exemplo, de conversar com o historiador Niall Ferguson e com o psicólogo evolutivo Joshua Greene, além do contato que tive com o professores do porte de Mark Tushnet, Jon Hanson (meu supervisor), Roberto Mangabeira Unger, Cass Sunstein, entre tantas outras mentes privilegiadas. Por lá, redigi muito pouco de minha tese – menos de um quarto do trabalho total. Mas a maior parte do dia era dedicada à pesquisa de obras que estavam disponíveis nas bibliotecas de Harvard e que nem em sonho teria igual possibilidade de encontrar em nosso país.

Quando retornei ao Brasil, portanto, tinha que enfrentar outro problema: a falta de tempo. Afinal, trabalho em tempo integral e também era preciso dedicar parte do tempo à família. Sobrava pouco tempo para redigir a tese. Chegando do trabalho por volta de 19:30, começava a trabalhar entre 21:00 e 21:30 e escrevia até algo em torno de 1h, 2h da manhã – com a mente já cansada. Mas, paradoxalmente, o texto fluiu mais facilmente que a redação da dissertação de mestrado em direito: em um ano e meio, escrevendo durante menos de ⅓ do tempo dedicado à dissertação, redigi um texto quase 25% maior.  O que mudou de uma experiência para a outra?

Esse aumento de produtividade decorreu da produção de novos hábitos. E o principal deles é que eu quebrei minha rotina em partes menores. Quando eu escrevia minha dissertação, minha mente ficava impaciente. Eu estava escrevendo uma dissertação de mestrado. E aquilo me consumia, porque a cada dia eu escrevia uma, duas páginas. Era muito pouco para um texto que terminaria com 390 laudas. Vez ou outro minha mente ficava mais “concentrada” e eu conseguia escrever mais. Mas o texto correu assim: aos trancos e barrancos.

Ao redigir a tese, a postura foi outra. Quebrei meu texto em partes menores. Depois de ter lido parte substantiva dos livros e artigos que eu citaria no trabalho, escrevi a estrutura da dissertação. Não foi nada complexo – a estrutura era um rascunho do sumário com todo o conteúdo que eu pretendia abordar. Esse sumário continha toda a estrutura da tese, dividia em capítulos, seções e subseções. Dividida a estrutura, decidi que trabalharia em um pedacinho de cada vez. Encerrado o “pedacinho”, eu me permitia tirar um ou alguns dias de folga para descansar.

Ao invés de pensar na tese como um todo, me concentrei em terminar uma parte de cada vez. E consegui elevar substancialmente a produtividade: ao invés de redigir uma página ou duas, em três ou quatro horas de trabalho eu conseguia escrever cinco ou seis. Claro, depois veio o processo de revisão de texto, de complementação de notas de rodapé, de diálogo com os orientadores. Mas, em um ano e meio, tinha quase quinhentas páginas escritas e prontas para a defesa.

Alison Miller: avoiding a breakdown by breaking it down

Alison Miller é uma das principais academic coaches norte-americanas. Doutora em psicologia e autora do livro “Finish Your Dissertation Once and for All! How to Overcome Psychological Barriers, Get Results, and Move on With Your Life”, ela recomenda estratégias psicológicas e comportamentais que elevam substancialmente a produtividade acadêmica. A partir de uma abordagem baseada em na terapia comportamental e na terapia de aceitação e comprometimento, Alison Miller propõe que a ansiedade que causa improdutividade em trabalhos acadêmicos de longa duração pode ser evitada caso o estudante aceite passar pela experiência de ter sentimentos e pensamentos negativos (como a ansiedade), aceitando que eles fazem parte do processo.

Essa abordagem de aceitação ativa de que é preciso trabalhar mesmo com sentimentos negativos pululando em nossa mente permite que

“você conclua sua dissertação/tese com a incrível liberdade de experimentar completamente pensamentos e sentimentos que surjam pelo caminho. Por exemplo, uma resposta típica ao pensamento ‘Eu não sei organizar minhas ideias’ é simplesmente parar de escrever. Mas quando você consegue observar o pensamento e percebê-lo como pensamento, você tem maior liberdade de ação. Você pode considerar o pensamento como uma mera avaliação de si mesmo e de sua situação e reconhecer que ainda tem a liberdade para escrever na presença desse pensamento. Se você puder aceitar mais a presença de sua ansiedade enquanto está trabalhando na dissertação, se torna mais capaz de liberar as energias desperdiçadas na própria luta contra a ansiedade. Ao invés disso, você pode usar essa energia pra trabalhar em sua dissertação mesmo quando a ansiedade estiver presente”.  (Miller, Alison B. Finish Your Dissertation Once and for All! How to Overcome Psychological Barriers, Get Results, and Move on With Your Life (2009). American Psychological Association (APA). Edição do Kindle. Locais do Kindle 1101-1104)

Uma das estratégias para ajudar a lidar com a ansiedade de escrever uma tese ou uma dissertação – trabalhos longos, que demandam meses/anos de muita labuta – é a de quebrar o trabalho em partes menores. Ao invés de se concentrar em escrever toda a dissertação ou a tese, concentre-se em escrever um pedacinho todo dia. No fim das contas, intuitivamente, foi o que eu fiz, já que conheci o livro apenas em 2016, quando já havia concluído a tese.

Não por menos, a autora denomina o título do capítulo sobre o tema de “avoiding a breakdown by breaking it down, que poderia ser traduzido como “evite um colapso nervoso (breakdown) quebrando em partes”. Para não ser dominado pela ansiedade ou por sentimentos de incapacidade de concluir um trabalho tão denso, busque trabalhar nas partes, e não no todo. Ao invés de tentar construir uma cidade inteira, construa uma casa por vez.

Como dividir grandes metas em pequenas tarefas?

De acordo com Alison Miller, o primeiro passo para quebrar o texto em partes menores é rascunhar uma noção de sua estrutura geral. Esse é um rascunho, não como o texto ficará em sua versão final. Enquanto estiver escrevendo, você terá uma ideia mais realista de que seções são realmente necessárias, quais capítulos podem ser reduzidos ou mesmo acrescentados. Faz parte do desenvolvimento de uma dissertação ou de uma tese revisá-la constantemente, e muito desse trabalho é realizado enquanto já o estamos escrevendo. É como viajar em um navio que está sendo constantemente reconstruído enquanto navegamos.

Definida a estrutura provisória do texto, vem o próximo passo. Estabeleça um prazo para concluir o trabalho. Idealmente, eu recomendaria que esse prazo fosse ajustado para, no máximo, três meses antes do prazo de depósito da tese. Terminar o texto em cima da hora será fonte de tensões adicionais com o orientador e a banca de defesa, já que seu texto, elaborado com tanto esmero e dedicação, terá que ser lido rapidamente.

A essa altura, você já tem noção do prazo a disposição para terminar o trabalho. Agora, é importante fixar prazos parciais para cada capítulo. Quanto tempo você terá para escrever a introdução? O primeiro capítulo? E o segundo? E o terceiro? E a conclusão? Quanto tempo você gastará organizando os elementos pré-textuais (definir o título final do trabalho, redigir a capa, elaborar o sumário, escrever o resumo (abstract) e os agradecimentos?

Escreva em uma folha de papel tudo o que precisará fazer para concluir seu trabalho. E atribua um prazo para cada uma dessas atividades.

Quebre o texto em partes cada vez menores. E não deixe de se recompensar por seu esforço.

Em minha tese, dividi meu tempo em três partes. A primeira delas seria dedicada a concluir os créditos de disciplinas na UnB. Passei um ano dedicado quase exclusivamente a essas tarefas e não pude ler mais do que alguns livros e artigos esparsos para a tese. Concluídas as disciplinas, passei à segunda parte: ler tudo o que eu precisaria para redigir a tese. Eu já tinha uma boa ideia do que pretendia fazer, e então me coloquei a procurar textos que pudessem auxiliar em meu intento. Com a recomendação de meus orientadores, dividi o universo da literatura em três aspectos: (i) textos de psicologia do comportamento normativo e biologia evolutiva; (ii) textos de sociologia; e (iii) textos de direito e teoria constitucional.

A partir daí, tracei um horizonte de três meses para efetuar a busca por bibiografia em base de dados, considerando esses três universos. Evidentemente, essa foi apenas uma triagem inicial de tudo o que eu precisaria ler. Quando comecei a ler efetivamente, ao fim de março de 2013 (segundo ano do doutorado), passei a me dedicar quase integralmente a essa tarefa. Lia entre 50 e 100 páginas por dia (afinal, trabalhava) e, sempre que um texto citado me atraía a atenção, eu o separava para buscá-lo depois nas bases de dados. Quando cheguei a Harvard, em agosto de 2013, já tinha uma boa carga de leitura e uma grande noção dos livros que buscaria nas bibliotecas de lá. Quando retornei ao Brasil, cerca de um ano depois, já tinha lido praticamente tudo o que precisava e comecei o processo de redigir a tese.

Basicamente, fiz o que Alison Miller propôs. Embora de maneira empírica e pouco metódica, já tinha na minha mente essa estrutura de trabalho. Mas acredito que seguir a recomendação dela e colocar tudo no papel é importante.

Depois que você escrever os prazos das atividades “globais” necessárias à redação da dissertação/tese, é importante “quebrar” cada tarefa em micro-tarefas. E atribuir prazos semanais e diários para cada micro-tarefa. Por exemplo, digamos que o capítulo 3 de seu trabalho acadêmico tem 9 partes, 3 seções subdivididas em 3 subseções cada. Segundo sua programação, esse capítulo deve ser escrito em, no máximo, três meses.

Três meses podem ser subdivididos em doze semanas, aproximadamente. Digamos que a segunda seção, de acordo com suas projeções, é a mais difícil. Você pode separar um mês e meio só para a segunda seção, dividindo 4 semanas para a primeira subseção e 2 semana para as outras duas. Resta, portanto, um mês e meio para as outras duas seções, que são mais simples. Com três semanas para cada seção (1 subseção por semana), seria possível terminar todo o trabalho. Bem mais fácil, não é? Depois, é só dividir cada subseção em microtarefas a serem desenvolvidas diariamente, com metas bem definidas para cada dia.

Essa estratégia é útil por três razões principais. Em primeiro lugar, ela permite o acompanhamento de seu progresso com base em metas mensuráveis. A cada dia, você pode acompanhar o cumprimento das metas parciais, estipuladas com base no resultado final pretendido. Ao cumprimento de cada meta parcial, você estará mais próximo de concluir seu trabalho, alcançando sua meta final.

Outra utilidade da estratégia se relaciona ao controle de ansiedade. Quando sua única meta é a conclusão integral do trabalho, é difícil manter o ânimo durante todo o tempo. A cada dia, sua única tarefa é “terminar a dissertação/tese” e o progresso dessa tarefa é lento. Muito lento. Você trabalha, trabalha, trabalha, trabalha e o resultado não chega porque ainda falta MUUUUUUUITO para terminar. Ao dividir essa grande tarefa em microtarefas (o menor pedaço que você conseguir), praticamente cada dia é um dia de progresso. E ainda que você não realize tudo o que se propôs fazer em uma data específica, poderá compensar um pouquinho nos dias seguintes e voltar ao ritmo planejado ou reajustar o cronograma total. De qualquer modo, você tem muito mais controle sobre o processo. Não é preciso ficar esperando o descerramento de todo o trabalho para ter aquela sensação de dever cumprido ao final de cada dia de trabalho.

Uma última vantagem evidente é que esse ritmo é mais justo com você mesmo. Você pode (e é recomendável) dar a si mesmo pequenos prêmios ao cumprir no prazo as metas diárias, semanais e mensais. Escreveu o primeiro capítulo? Que tal uma pequena viagem a uma cidade próxima? Que tal um jantar naquele restaurante bacana com seu(sua) amado(a)? Recompensas simples, mas imediatas ao cumprimento de uma pequena meta, levam o cérebro a se acostumar com a rotina – e até a gostar dela – em razão das pequenas recompensas, que o estimulam a prosseguir no comportamento. É como gamificar nossa rotina, transformando-a em um pequeno jogo onde cada dia é uma nova fase que podemos superar e comemorar o resultado.

E você? Como estuda? Já utilizou esse método? Não deixe de contar sua estratégia e seus resultados!

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